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UMA
HISTÓRIA DO SÉCULO PASSADO
Por volta de 1880, o francês François Gouin,
homem de meia-idade, resolve aprender a falar alemão.
Se estabelece então na cidade de Hamburgo, longe
de qualquer conterrâneo, e lá permanece durante
um ano. Só que em vez de procurar se integrar à
sociedade alemã, fazendo amizades e convivendo
com pessoas, ele se aprofunda numa série de tentativas
de dominar a língua através do estudo da
gramática e da decoreba de palavras em grande quantidade.
Assim
que chega em Hamburgo François se entrega com
devoção ao seu primeiro projeto: decorar
uma gramática de alemão junto com uma
tabela de 248 verbos irregulares! Alcança seu
intento em apenas 10 dias e corre para a universidade
local para testar seu vasto conhecimento recém
adquirido. "Grande decepção!",
afirma ele em seu livro mais tarde. "Não
conseguia entender uma única das palavras dirigidas
a mim."
Sem
desanimar, François retorna à solidão
de seu quarto, dessa vez decidido a decorar os radicais
e as declinações do alemão, e redecorar
a gramática e os verbos irregulares. Qual nada!
O resultado acaba sendo o mesmo que o anterior. Ao longo
daquele ano que havia reservado para se dedicar ao aprendizado
de alemão, François decorou livros, traduziu
Goethe e Schiller, e chegou a decorar 30.000 palavras
de um dicionário de alemão, tudo isso
no isolamento de seu quarto, e tudo resultando sempre
no mesmo desastre: sua incapacidade de se comunicar
com o povo alemão. Por mais que acumulasse informações
e adquirisse conhecimento a respeito do idioma, sua
habilidade de funcionar na sociedade alemã não
saía da estaca zero. Ao final de um ano, tendo
experimentado na própria carne a ineficácia
do método tradicional, François não
vê outra alternativa senão a de encarar
o fracasso e retornar para casa.
A
história de François, entretanto, tem
um final parcialmente feliz. Ao retornar, ele descobre
que seu sobrinho de 3 anos de idade, durante sua ausência,
havia passado pelo milagroso processo de aprender a
falar, transformando-se de um nenê sem expressão
verbal em um verdadeiro conversador em francês.
Como seria isso possível? Como é que uma
simples criança sem conhecimento nem experiência
consegue com tanta facilidade aquilo que ele, homem
letrado e experiente, havia tentado com uma segunda
língua e fracassado?
UMA
HISTÓRIA HOJE COMUM
Duas pessoas idênticas, com a mesma idade, mesmo
talento para línguas e mesma motivação,
resolveram aprender inglês. Uma foi matriculada
num bom curso de línguas, e a outra foi para
um país de língua inglesa para morar com
uma família e lá se envolver com qualquer
atividade. Dois ou três anos depois, entrevistamos
aquele que estudou diligentemente no curso de línguas.
Ele provavelmente dirá (já ouvi isso muitas
vezes):
-
A escola é boa, já terminei o Livro X
e aprendi muito vocabulário, gramática
... Mas, não sei não, eu tenho um problema,
me sinto muito trancado. No contato com norte-americanos,
me limito a responder perguntas. Não tenho coragem
de puxar um assunto. Quando ligo a televisão
na CNN, não entendo nem a metade. Em reuniões
com estrangeiros, só me manifesto quando a palavra
é dirigida a mim; tenho dificuldade em defender
meus pontos de vista, contra-argumentar. Aquelas situações
do livro que eu praticava na sala de aula parecem nunca
ocorrer na minha realidade.
Diagnóstico:
Os anos de tempo e o dinheiro investidos numa escola
que enfatiza learning e adota uma marcha predeterminada
atrelada a um plano didático de lições
e livros, acompanhado de exercícios repetitivos,
resultaram em um conhecimento parcial e memorizado a
respeito do idioma, o qual entretanto o aluno tem dificuldade
para transformar em habilidade funcional. Habilidade
truncada; carência de espontaneidade; não
consegue pensar em inglês. Autoconfiança
parcialmente destruída pela preocupação
com a forma correta e por uma certa dose de frustração
e sentimento de inferioridade. Vontade de parar por
algum tempo.
Entretanto,
quando entrevistamos aquele que acabou de retornar do
país de língua inglesa, depois de 6 ou
12 meses de convívio numa cultura estrangeira,
vemos que ele fala com naturalidade, desenvoltura e
fluência. Pensa em inglês e se sente à
vontade na presença de estrangeiros. É
uma pessoa que onde ouve inglês sendo falado,
é com ele mesmo: tem satisfação
de mostrar esta habilidade já adquirida. Facilmente
consegue trabalho, inclusive como instrutor em cursos
de inglês menos exigentes. Enquanto tiver contato
com o idioma, continuará a desenvolver sua habilidade,
de forma auto-suficiente.
Se
a ele perguntarmos (já que é tão
bom em inglês): - Afinal, quando é que
se usa o Perfect Tense e quando o Simple Past, ou se
lhe perguntarmos para explicar melhor os tais de verbos
modais, ele responderá: - Não me pergunta
uma coisa dessas, eu não sei nada; nunca estudei
isso, eu só sei é falar.
Diagnóstico:
Pouco ou nenhum conhecimento a respeito do idioma, porém
pleno domínio sobre o mesmo adquirido através
de interação humana em ambiente de cultura
estrangeira (acquisition). Sua habilidade pode facilmente
ser transformada em conhecimento. Alto grau de desembaraço
e autoconfiança. Sentimento de realização
e auto-suficiência. Forte vontade de continuar.
Inglês sempre fará parte de sua vida.
HISTÓRIA
DO ENSINO DE LÍNGUAS
As
duas histórias acima ilustram a evolução
da metodologia de ensino de línguas.
Muitas
teorias sobre aprendizado e ensino de línguas
já foram propostas, sempre diretamente influenciadas
por duas ciências: a lingüística e
a psicologia. As abordagens ao ensino de línguas
se sucedem ao sabor das tendências de cada época,
e podem ser resumidas a três movimentos importantes:
Grammar-Translation:
Desde
o século 18 até meados deste século
(e até hoje na maioria das escolas de 2o grau)
a metodologia predominante foi sempre tradução
e gramática. Esta abordagem, calcada na idéia
de que o aspecto fundamental da língua é
sua escrita, e de que esta é determinada por
regras gramaticais, teve sempre como objetivo principal
explicar a estruturação gramatical da
língua e acumular conhecimento a respeito dela
e de seu vocabulário, com a finalidade de se
estudar sua literatura e traduzir.
Audiolingualism:
O
primeiro grande movimento em oposição
ao método tradicional de gramática e tradução
ocorreu por volta dos anos 50, quando o behaviorismo
na área da psicologia e o estruturalismo na área
da lingüística estavam na moda. Os lingüistas
de então passaram a valorizar a língua
falada. Sustentavam que o aprendizado de línguas
estaria relacionado a reflexos condicionados, e que
a mecânica de imitar, repetir, memorizar e exercitar
palavras e frases seria instrumental para se alcançar
habilidade comunicativa. Esta visão acabou dando
origem aos métodos áudio-orais e audiovisuais,
baseados em automatismo e atrelados a planos didáticos
tipo Livro 1, Livro 2, etc. Tais métodos não
dependem de instrutores realmente proficientes na língua
estrangeira, sendo fáceis de serem montados e
baratos de serem mantidos, sendo por esta razão
até hoje bastante populares em cursinhos de inglês
no Brasil. Com o declínio da popularidade da
metodologia áudio-lingüística, alguns
cursos retornaram parcialmente ao método de tradução
e gramática, acrescentando livros de exercícios
escritos a seus programas.
Natural
or Communicative Approaches (o construtivismo no ensino
de línguas):
A
primeira história demonstra um fato quase evidente,
porém nem sempre consciente: que de todas as
áreas de desenvolvimento humano, habilidades
físicas, musicais e lingüísticas
são as que mais dependem de prática e
menos de teoria. Este fato, que na primeira história
havia deixado François Gouin perplexo, acabou
levando um século para ser cientificamente explicado
e iniciar uma nova tendência na metodologia de
aprendizado e ensino de línguas.
A
partir dos anos 70 e 80, surgem novas teorias nas áreas
da lingüística e da psicologia educacional.
Piaget e Vygotsky, pais da psicologia cognitiva contemporânea,
já haviam proposto que conhecimento é
construído em ambientes naturais de interação
social, estruturados culturalmente. Cada aprendiz constrói
seu próprio aprendizado baseado em experiências
de fundo psicológico resultantes de sua participação
ativa no ambiente.
Noam
Chomsky, por sua vez, revoluciona a lingüística
nos anos 60 afirmando que língua é uma
habilidade criativa e não memorizada, e que não
são as regras da gramática que determinam
o que é certo e errado, mas sim o desempenho
de um representante nativo da língua e da cultura
que determina o que é aceitável ou inaceitável.
Mais recentemente as idéias de Chomsky passaram
a inspirar a metodologia de ensino de línguas
na direção de uma abordagem humanística
baseada em comunicação e intermediação
de um facilitador carismático, e com participação
ativa do aprendiz.
Em
1985 o norte-americano Stephen Krashen traz ao ensino
de línguas as teorias de Chomsky, Piaget e Vygotsky,
e estabelece uma clara distinção entre
estudo formal e assimilação natural de
idiomas, entre informações acumuladas
e habilidade desenvolvida, redefinindo a partir daí
os rumos do ensino de línguas. Em seu livro (Principles
and Practice in Second Language Acquisition) Krashen
define os conceitos de language learning e language
acquisition e conclui que proficiência em língua
estrangeira não é resultado de acúmulo
de informações e conhecimento a respeito
de regras gramaticais. O aprendizado de um idioma se
dá pela assimilação subconsciente
de estruturas gramaticais e vocabulário em contextos
sociais. Krashen aponta também para a conclusão
de que o ensino de línguas eficaz não
é tampouco aquele que depende de receitas didáticas
em pacote, de prática oral repetitiva, ou que
busca apoio de equipamentos eletrônicos e tecnologia,
mas sim aquele que explora a habilidade do instrutor
em criar situações de comunicação
autêntica, naturalmente voltadas aos interesses
e necessidades de cada grupo e cada aluno, não
necessariamente dentro de uma sala de aula, que enfatiza
o intercâmbio entre pessoas de diferentes culturas,
e que dissocia as atividades de ensino e aprendizado
do plano técnico-didático, colocando-as
num plano pessoal-psicológico.
O
ensino de inglês no Brasil, na rede de escolas
de ensino médio, de certa forma, parece ter ficado
encalhado no método de tradução
e gramática do início do século,
enquanto que os cursinhos particulares, na sua maioria,
ficaram encalhados no método audiolingüístico
dos anos 60. Isto porque a abordagem natural-comunicativa,
hoje predominantemente aceita, depende fundamentalmente
do elemento humano qualificado e esbarra na dificuldade
de se obtê-lo no Brasil, evidenciando uma flagrante
deficiência de nossos cursos superiores na área
de línguas.
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