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Já
na Babilônia e no antigo Egito o homem procurava
entender a complexidade de suas habilidades cognitivas,
e especialmente a capacidade de assimilar e usar línguas.
Hoje,
o que se aceita de forma geral, com base no que as ciências
da neurolingüística, da psicologia e da
lingüística oferecem, é uma série
de hipóteses que procuram explicar esta habilidade
exclusiva do ser humano. Essas hipóteses são
resultado de estudos científicos que ajudam a
explicar, não só o desempenho cognitivo
do ser humano, mas também as diferenças
entre crianças e adultos.
A
IDADE CRÍTICA
Não
há dúvida de que existe uma idade crítica,
a partir da qual o aprendizado começa a ficar
mais difícil e o teto começa a baixar.
Este período parece situar-se entre os 12 e os
14 anos, podendo entretanto variar muito conforme a
pessoa e, principalmente, conforme as características
do ambiente lingüístico em que o aprendizado
ocorre. As limitações que começam
a se manifestar a partir da puberdade são fundamentalmente
de pronúncia, como mostra o gráfico abaixo:

O
estudo dos diferentes fatores que afetam o desenvolvimento
cognitivo do ser humano pode ajudar a explicar o fenômeno.
Os principais fatores são:
fatores
biológicos
fatores cognitivos
fatores de ordem afetiva
o ambiente e o input lingüístico
FATORES BIOLÓGICOS
Os
órgãos diretamente envolvidos na habilidade
lingüística do ser humano são o cérebro,
o aparelho auditivo e o aparelho articulatório
(cordas vocais, cavidades bucal e nasal, língua,
lábios, dentes). Destes, sem dúvida, o
cérebro é o mais importante.
A
hipótese da lateralização do cérebro
- Pesquisas no campo da neurologia demonstram que os
dois hemisférios cerebrais desempenham diferentes
funções. O lado esquerdo é o lado
lógico, analítico; enquanto que o direito
é o lado criativo, artístico, sensível
à música, responsável pelas emoções
e especializado em percepção e construção
de modelos e estruturas de conhecimento. O hemisfério
direito seria, por assim dizer, a porta de entrada das
experiências e a área de processamento
dessas experiências para transformá-las
em conhecimento.
Sabe-se também que a lateralização
do cérebro ocorre a partir da puberdade. Ou seja,
no cérebro de uma criança os dois hemisférios
estão mais interligados do que no cérebro
de um adulto, correspondendo esta interligação
ao período de aprendizado máximo. A assimilação
da língua ocorreria via hemisfério direito
para ser sedimentada no hemisfério esquerdo como
habilidade permanente. Portanto, o desempenho superior
das crianças estaria relacionado à maior
interação entre os dois hemisférios
cerebrais.
Acuidade
auditiva - Outros pesquisadores também sugerem
que uma provável acuidade auditiva superior,
bem como uma maior flexibilidade muscular do aparelho
articulatório de sons das crianças, também
podem ajudar a explicar o fenômeno da marcante
superioridade infantil no processo de assimilação
de línguas, principalmente na parte de pronúncia.
FATORES COGNITIVOS
Outra
diferença importante entre crianças e
adultos, agora quanto à suas habilidades cognitivas,
é que o adulto já passou pelo processo
de desenvolvimento cognitivo. Tem um caminho maior já
percorrido, tendo a capacidade de lidar com conceitos
abstratos, enquanto que a cognição das
crianças, ainda em fase de construção,
depende fundamentalmente de experiências concretas,
de percepção direta. Isto explica a capacidade
superior dos adultos de compreender a estrutura gramatical
da língua estrangeira bem como de sua própria
língua mãe. Explica também a tolerância
superior dos adultos quando submetidos a situações
artificiais com o propósito de exercitarem línguas
estrangeiras, bem como a tendência de buscar simples
transferências no plano de vocabulário,
com ajuda de dicionários.
Stephen
Krashen, em sua hipótese learning/acquisition,
estabelece uma distinção clara entre learning
(estudo formal - receber e acumular informações
e transformá-las em conhecimento por meio de
esforço intelectual e de capacidade de raciocínio
lógico) e acquisition (desenvolver habilidades
funcionais através de assimilação
natural, intuitiva, inconsciente, nas situações
reais e concretas de ambientes de interação
humana) e sustenta a predominância de acquisition
sobre learning no desenvolvimento de proficiência
em línguas.
Krashen
defende a importância maior de acquisition sobre
learning referindo-se a adolescentes e adultos. Considerando
que acquisition está mais intimamente ligado
aos processos cognitivos do ser humano na infância,
é lógico e evidente deduzirmos que acquisition
é ainda mais preponderante no caso do aprendizado
de crianças.
Portanto,
se proficiência lingüística pouco
depende de conhecimento armazenado, mas sim de habilidade
assimilada na prática, construída através
de experiências concretas, fica com mais clareza
explicada a superioridade das crianças no aprendizado
de línguas.
FATORES
AFETIVOS E PSICOLÓGICOS
A
hipótese conhecida como affective filter, também
de Stephen Krashen, é outro aspecto importante
que influi no aprendizado de línguas. Fatores
de ordem psicológico-afetiva podem causar um
impacto direto na capacidade de aprendizado, tais como:
desmotivação:
é a ausência de motivo expontâneo,
causada por programas não autenticados pela presença
da cultura estrangeira e que não representam
desafio. Também freqüentemente causada pela
frustração de não se ter alcançado
proficiência através do estudo formal ou
pelo insucesso em sistemas de avaliação
(exames, notas, etc.). Experiências anteriores
de resultados negativos, podem desencorajar o aluno
de uma nova tentativa. Aquele que não se identifica
com a cultura estrangeira, - ou que às vezes
até a despreza, - normalmente por falta de informação
a respeito da mesma, estará desmotivado para
aprender sua língua. Já a criança,
por natureza tem um alto grau de curiosidade pelo desconhecido
e forte sintonia com tudo no ambiente que a rodeia.
perfeccionismo: tendência a preocupar-se excessivamente
com a forma, e idéia radicalizada do conceito
de certo e errado em se tratando de línguas.
A pessoa prefere não correr o risco de cometer
deslizes.
falta de autoconfiança: talvez causada por traumas
durante a educação recebida em casa ou
na escola, e pela radicalização do conceito
de certo e errado em se tratando de línguas.
A pessoa que tem uma boa imagem de si próprio
e autoconfiança, é por natureza mais experimentador
e descobridor.
dependência da eloqüência: A precisão
e elegância no falar é uma conquista alcançada
ao longo da vida, fruto de uma carreira acadêmica.
Essa habilidade com nossa língua mãe representa
segurança e poder, dos quais é difícil
abrir mão. Isso torna a tarefa de começar
de novo na língua estrangeira, do quase nada,
de forma rudimentar, como se pouco inteligente fôssemos,
extremamente frustrante.
autoconsciência: consciência da própria
imagem; capacidade de imaginar o que os outros podem
pensar e preocupar-se com isso.
ansiedade: causada pela expectativa excessiva de obtenção
de resultados.
provincianismo: atitude de se fechar naquilo com que
se identifica, seu jeito de ser e de falar; de se sentir
inseguro fora deles - problema freqüentemente observado
em adolescentes.
Ora, todos esses bloqueios são resultado da vida
pregressa do indivíduo, podendo ocorrer portanto
unicamente em adolescentes e principalmente adultos.
Fica, pois, novamente evidenciado que as crianças,
ainda livres de tais bloqueios, devem ter uma capacidade
de assimilação superior à dos adultos.
O
AMBIENTE E O INPUT LINGÜÍSTICO
Krashen,
em sua comprehensible input hypothesis, sustenta que
assimilação de línguas ocorre em
situações reais, quando a pessoa está
exposta a uma linguagem que esteja um pouco acima (não
muito acima) de sua capacidade de entendimento. Ora,
é natural que quando adultos se dirigem à
crianças, usam um linguajar próprio, modificado
tanto no plano estrutural como no vocabulário,
para se aproximar ao nível de compreensão
da criança. Já nos ambientes em que adultos
vivem, eles não recebem o mesmo tipo de tratamento.
Uma vez que são adultos, seu universo de pensamento
e linguagem é mais amplo; ou seja, o caminho
já desbravado é maior e a linguagem, por
eles almejada e a eles dirigida, tende a ser mais complexa
e os conceitos mais abstratos, facilmente se situando
além de seu nível de entendimento.
Desta
forma, podemos concluir que os ambientes de convívio
das crianças são, por natureza, mais propícios
ao aprendizado de línguas do que os ambientes
dos adultos.
CONCLUSÕES:
Linguagem
é um elemento de relacionamento humano e todos
desenvolvem proficiência em línguas estrangeiras
mais através de acquisition (desenvolvimento
de habilidades através de assimilação
natural, intuitiva, inconsciente, em ambientes de interação
humana) do que de learning (estudo formal - memorizar
informações e transformá-las em
conhecimento através de esforço intelectual),
especialmente crianças.
A criança, mais do que o adulto, precisa e se
beneficia de contato humano para desenvolver habilidades
lingüísticas. Crianças têm
grande resistência ao aprendizado formal, artificial
e dirigido. Elas só procuram assimilar e fazer
uso da língua estrangeira em situações
de autêntica necessidade, desenvolvendo sua habilidade
e construindo seu próprio aprendizado a partir
de situações reais de interação
em ambiente da língua e da cultura estrangeira.
Ao perceberem que a pessoa que deles se aproxima fala
sua língua mãe, dificilmente se submetem
à difícil e frustrante artificialidade
de usar outro meio de comunicação. A autenticidade
do ambiente é mais importante do que o caráter
das atividades (lúdicas ou não), e ambos
são mais importantes do que qualquer planificação
didática predeterminada.
O ritmo de assimilação das crianças
é mais rápido e, o teto, mais alto.
Existe uma idade crítica (12 a 14 anos), a partir
da qual o ser humano gradativamente perde a capacidade
de assimilar línguas ao nível de língua
mãe. Essa perda é mais perceptível
na pronúncia. Até os 12 ou 14 anos de
idade, a criança que tiver contato suficiente
com o idioma, o assimilará de forma tão
completa quanto a língua mãe.
No nosso caso (brasileiros que vivem no Brasil), onde
ambientes autênticos de língua e cultura
estrangeira são raros, decisões a respeito
do aprendizado de inglês das crianças devem
ser baseadas menos na idade e mais na oportunidade.
De nada adiantará colocar a criança cedo
em contato com uma língua estrangeira se o modelo
oferecido for caracterizado por desvios e ausência
de valores culturais.
É grande a responsabilidade ao se colocar crianças,
que ainda não atingiram a idade crítica,
em clubes, cursinhos ou escolinhas que oferecem inglês.
Se os instrutores tiverem uma proficiência limitada,
com sotaque e outros desvios que normalmente caracterizam
aquele que não é nativo, todos os desvios
serão transferidos à criança, podendo
causar danos irreversíveis a seu potencial de
assimilação. Seria como colocar a gema
bruta nas mãos de um lapidador aprendiz.
Atividades que expõem a criança ao sistema
ortográfico do inglês, o qual se caracteriza
por extrema irregularidade e acentuado contraste em
relação ao português, são
prejudiciais. Veja Correlação Ortografia
x Pronúncia.
Uma vez que o momento ideal de se alcançar proficiência
em línguas estrangeiras é a idade escolar
e, sendo bilingüismo uma qualificação
básica do indivíduo na sociedade moderna,
compete às escolas de ensino fundamental e médio
proporcionar ambientes autênticos de language
acquisition.
É grande a responsabilidade do poder público
em abrir urgentemente as fronteiras culturais, facilitando
a vinda de falantes nativos de línguas estrangeiras
através de um enquadramento legal específico
e burocracia simplificada, bem como incentivando a criação
de organizações voltadas a intercâmbio
lingüístico e cultural e promovendo a isenção
fiscal das mesmas.
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